Curiosidades sobre o Rádio
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Fatos interessantes e pouco conhecidos sobre o rádio no Brasil e no mundo
O rádio é um dos meios de comunicação mais antigos e, curiosamente, um dos mais resistentes às transformações tecnológicas. Mesmo diante do advento da televisão, da internet, dos podcasts e das redes sociais, ele permanece vivo, relevante e adaptável. No Brasil e no mundo, o rádio coleciona histórias fascinantes, curiosidades surpreendentes e um impacto social que vai muito além das ondas sonoras.
Neste post, vamos explorar fatos pouco conhecidos, personagens importantes e momentos marcantes dessa trajetória — desde as primeiras transmissões até as inovações mais recentes que mostram que o rádio, longe de ser coisa do passado, tem um futuro promissor.

A invenção do rádio — um caso de disputa histórica
Se você perguntar a alguém quem inventou o rádio, é provável que ouça o nome de Guglielmo Marconi. De fato, o italiano foi um pioneiro da telegrafia sem fio e recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1909. Porém, a história é mais complexa do que parece.
Nikola Tesla, o genial inventor sérvio radicado nos Estados Unidos, também desenvolveu experimentos e patentes de tecnologias de transmissão sem fio antes de Marconi. Em 1943, a Suprema Corte dos EUA reconheceu oficialmente Tesla como o verdadeiro inventor do rádio, anulando algumas das patentes de Marconi.
Isso mostra que, como em muitas grandes invenções, o rádio foi o resultado de um conjunto de descobertas e avanços realizados por cientistas e inventores em diferentes partes do mundo, todos movidos por um mesmo sonho: fazer a voz humana viajar pelo ar sem fios.
A primeira transmissão de rádio do mundo
O primeiro registro de uma transmissão de áudio — e não apenas de sinais telegráficos — aconteceu em 1906, realizada por Reginald Fessenden, um engenheiro canadense.
Na véspera de Natal daquele ano, ele transmitiu música e fala para operadores de navios próximos à costa dos Estados Unidos. Diz-se que Fessenden tocou uma canção no violino, leu um trecho da Bíblia e desejou “feliz Natal” aos ouvintes. Essa noite mágica é considerada o “nascimento oficial” da radiodifusão sonora.
O nascimento do rádio no Brasil
O rádio brasileiro nasceu oficialmente em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência. Na ocasião, uma transmissão experimental foi realizada do Corcovado, no Rio de Janeiro, por Edgar Roquette-Pinto e Henrique Morize.
O evento transmitiu o discurso do então presidente Epitácio Pessoa e um trecho da ópera O Guarani, de Carlos Gomes. Pouquíssimas pessoas possuíam receptores na época, e os aparelhos eram importados e caríssimos — mas aquele momento simbólico marcou o ponto de partida da radiodifusão no país.
Roquette-Pinto, que mais tarde fundaria a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, via o rádio como um instrumento de educação e cultura, não apenas de entretenimento. Seu lema era claro: “O rádio é a escola dos que não têm escola.”
Quando o rádio virou febre popular
Durante as décadas de 1930 e 1940, o rádio tornou-se o principal meio de comunicação e entretenimento no Brasil e em boa parte do mundo. Foi a era de ouro das rádios AM.
A programação incluía:
- Rádios novelas, que anteciparam o formato das telenovelas da TV;
- Programas de auditório, com plateias e artistas ao vivo;
- Programas jornalísticos, que traziam as notícias do dia;
- Transmissões esportivas, que aproximavam torcedores de seus clubes;
- E, claro, muita música, já que o rádio foi o grande propulsor da indústria fonográfica brasileira.
Foi também nessa época que surgiram vozes lendárias, como as de Ary Barroso, César Ladeira e Hebe Camargo, que iniciou sua carreira como cantora de rádio.
O dia em que o rádio “enganou” o mundo
Um dos episódios mais curiosos da história do rádio ocorreu em 30 de outubro de 1938, nos Estados Unidos, quando Orson Welles, então com apenas 23 anos, dramatizou o livro A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells.
A transmissão, feita como se fosse um noticiário ao vivo, descrevia uma suposta invasão de marcianos à Terra. Muitos ouvintes sintonizaram a emissão já em andamento e, sem perceber que se tratava de uma dramatização, acreditaram que o ataque fosse real.
O pânico foi generalizado em algumas regiões — e esse episódio consagrou o poder do rádio de influenciar emoções e percepções de forma direta e imediata.
O rádio e o avanço tecnológico
Com o tempo, o rádio se modernizou, acompanhando as revoluções tecnológicas.
Nos anos 1940 e 1950, os rádios portáteis com válvulas e, depois, com transistores, tornaram o aparelho mais leve e acessível. O transistor, inventado em 1947, foi um divisor de águas: a popularização dos radinhos de pilha deu liberdade ao ouvinte — bastava sintonizar e levar o som para qualquer lugar.
Nos anos 1970, a expansão do FM (Frequência Modulada) trouxe maior qualidade de som e um novo público, especialmente jovem e urbano. Enquanto o AM permanecia com o jornalismo, o esporte e o serviço público, o FM passou a concentrar as estações musicais, valorizando o som estéreo e o estilo descontraído dos locutores.
O rádio e a política
O rádio sempre teve um papel político importante. No Brasil, ele se consolidou como instrumento de comunicação de massa justamente durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937–1945).
Vargas compreendeu o poder do rádio e criou o programa “A Hora do Brasil” — hoje conhecido como “A Voz do Brasil” —, com o objetivo de divulgar as ações do governo e unificar o país em torno da figura do presidente.
Curiosamente, A Voz do Brasil é o programa de rádio mais antigo ainda em exibição no mundo, transmitido de forma obrigatória desde 1938.
O rádio e o futebol — uma paixão nacional
Pouco depois de sua criação, o rádio se tornou o melhor amigo do futebol. No início, as transmissões eram precárias, mas rapidamente evoluíram.
A primeira narração esportiva oficial no Brasil aconteceu em 1931, quando Nicolau Tuma, conhecido mais tarde como o “speaker metralhadora”, transmitiu ao vivo um jogo entre Corinthians e Palmeiras (então Palestra Itália).
A partir daí, o rádio transformou o futebol em espetáculo nacional. Vozes lendárias como as de Osmar Santos, Luciano do Valle e Fiore Gigliotti criaram bordões que até hoje fazem parte da cultura popular.
Essa relação de afeto entre locutor e ouvinte é uma das chaves do sucesso duradouro do rádio esportivo.
As radionovelas — emoção em ondas sonoras
Antes das telenovelas, o rádio já sabia como emocionar o público. As radionovelas foram um fenômeno cultural até os anos 1950, sobretudo entre donas de casa e famílias das áreas urbanas.
Transmitem-se histórias de amor, drama, mistério e aventura — tudo interpretado por atores que, com apenas a voz, davam vida a dezenas de personagens. Os efeitos sonoros eram produzidos manualmente no estúdio: passos, portas que se abriam, trovões, tiros e até sons de beijos.
No Brasil, emissoras como a Nacional do Rio de Janeiro e a Tupi de São Paulo ficaram famosas por suas produções caprichadas, algumas com patrocínio de grandes marcas. Esse formato abriu caminho para muitos artistas que depois migraram para a televisão.
O rádio e o humor
O humor radiofônico sempre foi uma das marcas do rádio brasileiro. Programas como “PRK-30”, de Lauro Borges e Castro Barbosa, nos anos 1940, revolucionaram o gênero ao misturar improviso, sátira política e crítica social.
Mais tarde, surgiram trios e duplas humorísticas que marcaram época, mostrando que o rádio era capaz de fazer rir mesmo sem imagens — apenas com a entonação, o timing e o bom texto.
As ondas curtas e o rádio internacional
Outra faceta fascinante é o rádio de ondas curtas (OC), capaz de transmitir sinais a milhares de quilômetros, refletidos na ionosfera.
Graças a essa tecnologia, foi possível ouvir emissoras de países distantes, como BBC de Londres, Deutsche Welle ou Rádio Moscou, mesmo em zonas rurais ou isoladas do Brasil.
Durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, as ondas curtas foram armas poderosas de propaganda política e comunicação internacional. Era o “Twitter” da época, mas com sotaques vindos do outro lado do planeta.
O rádio no contexto das comunidades e da cidadania
O rádio também tem uma vertente comunitária e educativa muito forte. Em pequenas cidades e comunidades rurais, ele ainda é o meio de comunicação mais acessível.
As rádios comunitárias, legalizadas no Brasil a partir de 1998, funcionam como ferramentas de cidadania: divulgam informações locais, campanhas de saúde, alertas climáticos e eventos culturais.
Em muitos lugares, o rádio é literalmente o coração da comunidade — um companheiro diário que dá voz a quem normalmente não teria espaço nos grandes meios.
O poder da voz e da imaginação
Uma das razões do charme do rádio é a forma como ele estimula a imaginação do ouvinte.
Sem imagens, a mente cria seus próprios cenários, rostos e situações. Cada pessoa “enxerga” à sua maneira, tornando a experiência pessoal e íntima. Essa relação emocional é diferente de qualquer outro meio — e talvez explique por que tantos ainda se sentem acompanhados por um simples rádio ligado.
O rádio e a música brasileira
O rádio foi — e ainda é — o grande difusor da música popular brasileira.
Artistas como Carmen Miranda, Francisco Alves, Orlando Silva, Ângela Maria e tantos outros se tornaram ídolos por meio das ondas do rádio. Durante décadas, programas de calouros lançaram novos talentos para o país inteiro.
Nos anos 1970 e 1980, programas musicais em FM criaram estilos de locução mais jovens e descontraídos, consolidando o formato de “rádio musical” que ainda domina nos grandes centros.
As mulheres no rádio
As mulheres desempenharam papéis fundamentais, embora muitas vezes invisibilizados, na história do rádio.
Hebe Camargo, Nara Leão, Inezita Barroso e tantas outras começaram nesse meio. Também surgiram locutoras, redatoras e radialistas que, com o tempo, abriram espaço em um ambiente inicialmente masculino.
Hoje, há um número crescente de mulheres à frente de programas jornalísticos, esportivos e de variedades, refletindo a diversidade e a mudança de mentalidade na sociedade.
Fatos curiosos e números impressionantes
- O Dia Mundial do Rádio é celebrado em 13 de fevereiro, data escolhida pela UNESCO em homenagem à criação da Rádio das Nações Unidas em 1946.
- Em muitos países africanos, o rádio é o principal meio de comunicação — mais acessível que a televisão ou a internet.
- O primeiro comercial de rádio do mundo foi transmitido em 1922 em Nova York, pela emissora WEAF.
- No Brasil, existem mais de 10 mil emissoras legalizadas, entre AM, FM e comunitárias.
- As transmissões por rádio são tão confiáveis que, em casos de desastre natural, muitas redes voltam a usar rádio amador para manter a comunicação.
O rádio na era digital e dos podcasts
Com o avanço da internet, muitos acreditaram que o rádio desapareceria — mas o que ocorreu foi exatamente o oposto.
O rádio se reinventou. Hoje é possível ouvir praticamente qualquer emissora do mundo via streaming, e os podcasts recuperaram o hábito de escutar conteúdo em áudio sob demanda.
O formato podcast é, de certo modo, uma evolução natural do rádio: continua baseado na voz e na narrativa sonora, mas com a liberdade da internet e o controle total do ouvinte sobre o horário e o tema.
As rádios mais modernas integram suas transmissões a plataformas digitais, redes sociais e aplicativos, combinando a tradição do ao vivo com a interatividade da web.
O futuro do rádio
O futuro do rádio está nas múltiplas plataformas. Com a expansão do rádio digital (HD Radio e DAB), a qualidade de som melhora significativamente e novos serviços de dados podem ser incorporados — como informações de tráfego, manchetes e até imagens nos painéis dos carros.
Além disso, assistentes de voz e dispositivos inteligentes (como Alexa e Google Nest) reintroduziram o hábito de “ouvir rádio” em casa, mas agora por meio da tecnologia de streaming.
O rádio segue firme porque preserva sua essência: comunicação humana, direta e afetiva. Ele não compete com as telas — ele as complementa.
Por que o rádio ainda importa
Mesmo em plena era digital, o rádio continua indispensável.
Ele é:
- Imediato: traz informações em tempo real, especialmente em situações de emergência;
- Acessível: não requer conexão à internet;
- Companheiro: pode ser ouvido enquanto se trabalha, dirige ou realiza outras tarefas;
- Democrático: dá voz a pequenas comunidades e a opiniões diversas.
Pesquisas recentes mostram que milhões de brasileiros ainda escutam rádio diariamente — seja em casa, no carro, no celular ou via streaming.
Conclusão — O som que não vai se calar
A história do rádio é uma jornada de inovação, superação e reinvenção constante. De experimento científico a meio de comunicação de massa; de válvulas a aplicativos; de ondas curtas a podcasts — o rádio atravessou séculos, guerras e revoluções tecnológicas.
Talvez o segredo de sua longevidade esteja no fato de que ele fala com as pessoas, e não apenas para elas. O rádio acolhe, informa, diverte, educa, emociona.
Num mundo em que a velocidade das informações pode ser avassaladora, o rádio mantém um ritmo humano, próximo, caloroso — continua sendo a voz que acompanha o trabalhador no trânsito, o agricultor no campo, o estudante em casa, o caminhoneiro na estrada.
E, enquanto houver uma história para contar e um ouvido para ouvir, o rádio jamais deixará de existir.